O galo maluco,finalmente venceu.O seu canto desafinado e insuportavelmente rouco já vinha sendo executado religiosamente havia pelo menos duas horas.Por volta das cinco horas da manhã, após resistir de forma heróica a estridente cantoria e esmurrar implacavelmente o travesseiro,pus me de pé. “Nada melhor,que uma carabina ou um rifle com mira telescópica para arrebentar essa cabecinha desprovida de compromissos( a não ser cantar e transar com todas as galinhas do bairro) com um único e preciso projétil.” A lua se pôs a dormir,o dia começaria.Ao levantar,arrastei minha carcaça exausta até a cozinha para um nobre café da manhã,com pãezinhos quentinhos molhados no sabor suave da manteiga,maçãs colhidas na última colheita,Croissants recheados com provolone e presunto de Parma,sucos de laranja,melancia e pêssego do campo.Ao abrir a geladeira porém,percebi que o tal café da manhã não seria tão nobre assim.O único habitante da geladeira,um velho potinho de iogurte,já havia resistido por tempo suficiente os ventos gélidos e,cansado da solidão cometera suicídio.Os fortes odores do seu avançado estado de putrefação penetraram minhas narinas e,logo, livrei-me de seu cadáver.Após tomar um copo de água morna provinda das nossas confiáveis redes de abastecimento,completei o ritual diário;escovar os dentes,bochechos e gargarejos,vestir-se de forma adequada e descer de elevador até a garagem,de onde partiria para mais um dia de trabalho.Quando imaginei que as forças do além iriam me propor algo agradável de forma a compensar o estresse matinal já sofrido,com bundinhas e peitinhos durinhos adentrando o elevador,tais forças ,demoníacas, mais uma vez me traíram; os desagradáveis odores oriundos da flora bacteriana oral de Seu Valcir,o síndico, me acompanhariam do décimo segundo andar até o subsolo.Um apneísta profissional,pode se privar de oxigênio por um tempo aproximado de dez minutos,o recorde mundial,provindo de um brasileiro,é de dezoito minutos.Meus pulmões,castigados pelos efeitos crônicos da asma, por sua vez,suportam aproximadamente 50 segundos.Do décimo segundo andar(o qual eu vivo) até o subsolo de meu prédio o elevador leva por voltar de 3 minutos para completar o seu percurso,em uma velocidade aproximada de 2,5metros por segundo. Sobram dois minutos e 10 segundos para realizar micro respirações intercaladas com fungadas silenciosas para,de forma desesperada,poupar meus pobres receptores olfativos dos odores nada agradáveis do senhorzinho simpático.Além ,é claro,demonstrar minhas habilidades meteorológicas.
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